quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Você é feliz?

Você é feliz?
Essa questão é uma enorme armadilha: pode ser respondida com um sim ou com um não, e, no entanto, não consigo respondê-la de bate pronto. Não sei responder. Se me perguntam qual minha cor favorita, em um instante digo: azul. Se me questionam quais são meus ídolos, vou de Woody Allen a Djavan. Se quiser saber qual estação do ano eu prefiro, digo imediatamente que é o verão, ainda que o calor me faça derreter e cause certo incômodo.
O sorriso de uma criança me faz ser feliz, assim como um dia de sol, uma taça de sorvete ou ir ao cinema. Mas esses são momentos. Posso ilustrar milhares de momentos que me fazem estar feliz: amigos, família, chocolate, filmes, andar descalça, ver Chaves mesmo aos 26, comer lasanha de microondas, estourar os joelhos de tanto pular na pista de dança. Mas a questão acima vai além se estar. A questão é SER.
Creio que não consiga responder na lata por estar sempre preocupada com o que não está ajustado em minha vida: é o emprego ideal que não chega, são os desajustes do coração, é a grana que anda apertada...
Ao mesmo tempo, fico agradecida por ter tudo isso que me faz estar feliz, mas quero saber responder à pergunta da forma certa.
E você:

Você é feliz?

domingo, 4 de agosto de 2013

Fotografias recortadas


Deveria estar dormindo, mas o frio não me deixa em paz.  O vento gelado sabe que não o aprecio e por isso mesmo brinca de achar frestas por entre os cobertores para tocar minha pele, gelar minha espinha e me inquietar.
Apago a luz e escuto o silêncio. Automaticamente, minha mente que se manteve quieta o dia inteiro, começa a disparar mil pensamentos distintos por minuto. A dor na nuca é quase instantânea. Faço um chá e tento relaxar, filtrando os pensamentos em pastas.
Ao fechar os olhos, começo a fuçar meu arquivo mental e lá encontro um álbum com centenas de fotos que tirei de nós ao longo do tempo. Há fotos distorcidas no fundo do baú, mas que ainda guardam o perfume dos primeiros dias cheios de expectativa e curiosidade. Em meu baú imaginário há imagens de muitas noites ensolaradas e regadas a boas conversas. É como se as fotos pudessem reproduzir fragmentos do que foi dito no momento do click. Há ainda compartimentos de fotos musicais, que te revelam aos meus olhos com versos que vão de Beatles a Bob Dylan ou de Caetano a Gil, tudo junto e ao mesmo tempo.
Vejo fotos de você com os olhos fechados e tenho captado em imagens todos os seus trejeitos e manias, cada linha de expressão e cada cabelo branco que insiste em aparecer.
Fuçando um pouco mais, encontro muitas imagens de suas mãos nos meus seios, minhas mãos cravadas em suas costas e de nossas roupas sobrepostas no chão, jogadas ao longe, na pressa pela busca do prazer. 
Há fotografias em preto e branco, na luz de sépia, sob a claridade do sol e até com infravermelho, revelando seu sono.
Fecho o baú e abro os olhos sorrindo, chegando a conclusão de que cada momento ali revisitado faz parte de mim, assim como uma tatuagem que não desgruda da pele e mesmo se passada pelo laser, deixa marcas.
Me pergunto por um instante porque não há fotografias físicas e me questiono também se no seu álbum há imagens minhas. Mas aí já é uma outra história, para outra madrugada sem sono... Volto no meu álbum imaginário e escolho nossa melhor foto, que vai dormir comigo hoje, embaixo de meu travesseiro.


domingo, 30 de setembro de 2012

O Ciúme




É ao som de Caetano Veloso que inicio este post, depois de mais de um mês sem por aqui dar as caras.

Como todos sabem ,adoro me contar. Como escreveu Drummond - de forma tão bela que sempre penso que é para mim e sobre mim -, ''preciso de todos''. Acontece que nos últimos meses fui tomada por um sentimento não tão inédito assim, mas que em mim se manifestou como tal em sua intensidade, o que me tem causado enorme estranheza: O ciúme.

No dicionário, entre outras definições, pode-se dizer que ciúme é:

 1. Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração.
2. Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação.
3. Ressentimento invejoso contra um rival ou suposto rival mais eficiente ou mais bem-sucedido, ou contra o possessor de uma vantagem material ou intelectual cobiçada''.

Dentro de mim não sei se é tão ao pé da letra como o pai dos burros define. Talvez seja assim, mas de forma mais branda, ou mesmo seja uma onda indesejável que vai e volta sem querer. O fato é que o danado apareceu em mim depois de uma intuição que nem sei se era certa, e ao identificá-lo, fiquei  muitíssimo envergonhada por senti-lo em mim.

Voltando ao meu querido Caetano Veloso, uma música em especial é que me fez escrever essas palavras tortas sobre esse sentimento que não gosto, mas vem me visitar às vezes. A música é justamente ''O ciúme''. Ele diz em um dos versos da canção que '' O ciúme lançou sua flecha preta e acertou no meio exato da garganta''. Se eu fosse definir tão estranho sentimento, o faria como Caê fez, pois é exatamente como vejo o ciúme : uma flecha traiçoeira que nos acerta assim, meio de bobeira.

Uma das palavras que permeiam o ciúme, com certeza é Tragédia. Digo isso com base em três exemplos da literatura. São eles: Otelo, que através do ciúme teve seu triste fim nas mãos de Desdêmona; Bentinho, de Dom Casmurro e sua Capitu e por último e não menos importante, o ciumento que mais mexeu comigo, Paulo Honório, do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Este último faz com que o ciúme culmine numa solidão devastadora, do tipo que ninguém deseja.

O fato é que não gosto nada do ciúme. Há quem o ache até ''engraçadinho''. Para mim é mais uma forma de deixar as coisas nebulosas e causar neuroses que muitas vezes são desnecessárias. Em outro verso da música, Caetano diz sobre o ciúme que ''Tanta gente canta, tanta gente cala'‘, e arremata dizendo que ''Sobre toda estrada, sobre toda sala paira, monstruosa, a sombra do ciúme. '' É por isso que resolvi escrever sobre ele : Para gritar aos quatro ventos que eu sou mais do que ele e quando ele teimar em aparecer, o chutarei para um canto qualquer esquecido e de preferência FORA de mim.

domingo, 2 de setembro de 2012

Kundera em mim

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”


Milan Kundera me ronda....

Teresa me ronda. Tomas me ronda. Sabina me ronda.

Esses personagens entraram em minha vida e me fizeram pensar...mudar...refletir...

Me sinto pesadamente leve e levemente pesada.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Romântico é uma espécie em extinção?


Ontem, em mais uma de minhas inúmeras noites insones, minha amiga Flávia Oliveira me chamou no Facebook e me mostrou um vídeo, pedindo para que eu assistisse e dizendo que eu, como uma das últimas românticas do mundo, iria adorar. Tratava-se de um vídeo feito por um rapaz que foi a uma balada e se encantou por uma menina. Segundo ele, foi ''amor à primeira vista'‘, porém perdeu seu telefone. O vídeo era um apelo para encontrar a tal garota e chama-se ''perdi meu amor na balada''. Como esperado, eu achei muito fofo, e Flávia comentou que muitas pessoas classificaram a atitude do rapaz como ''ridícula''. Fiquei espantada com isso e Flavinha pediu então, que escrevesse a respeito.

Seu pedido é uma ordem, minha querida!

Tenho notado que cada vez mais o romantismo que eu tanto admiro e pratico está um tanto quanto escasso.

Sou admiradora do ultrarromantismo e adoro figuras passionais que colocam o amor acima de tudo e por ele travam uma busca incansável. No fundo, os admiro porque sou assim também: passional até o limite do limite. Reconheço porém, que tudo que é feito e sentido em demasia pode enjoar, como todos dizem. O cerne da questão e deste post é: em tempos como esse que vivemos, onde tudo é muito rápido e instantâneo, aonde foi parar o romantismo, ainda que de forma comedida?

Sinto que hoje em dia, devido à rapidez com que as coisas se movem, não há mais aquela coisa da CONQUISTA. Flertar em pleno 2012 muitas vezes se resume a uma cutucada no Facebook ou mesmo algumas cantadas que de tão baratas e sem criatividade, chegam a ser bizarras. Sinto falta de troca de olhares, de nervosismo, expectativa, uma certa timidez e sobretudo ,delicadeza.Saber que algumas pessoas acharam ridícula a atitude do rapaz que fez o vídeo que citei acima é só mais um reflexo de minha opinião: as pessoas ,especialmente os mais jovens,de modo geral não estão mais acostumadas a atitudes assim, dotadas de sensibilidade e de um certo arrebatamento. Sinto falta de ver nas pessoas aquele brilho no olhar e aquela vontade louca de se jogar. Ao que me parece, falta EMPOLGAÇÃO e disposição para arriscar. Tudo isso implica para que o romantismo vá diminuindo. Não há mais tanta vontade de se expor. Não há mais cartas de amor. Fernando pessoa diz que cartas de amor e palavras esdrúxulas são naturalmente ridículas. Será que as pessoas estão com medo de parecerem assim? Falta hoje em dia o medo de arriscar quando o que está em jogo é o coração.

Não quero aqui ser radical demais, nem bancar a romântica irracional, mas acho que realmente falta um quê de ternura e mistério nas relações em tempos tão modernos. Como escreveu Arthur da Távola, há que se ‘’buscar a criança própria e a do amado/a ‘’ e de vez em quando colocar ‘’intenções de quermesse ‘’ em nossos olhos e porque não ‘’beber licor de contos de fadas’’.

Acredito no amor e na necessidade de emoção. Há sentimentos na vida que não se explicam... Que só se sentem. Fazendo mais uma citação, Gilberto Gil diz que do luar não há nada a dizer a não ser que ‘’a gente PRECISA ver o luar’’. É isso! Para bons entendedores, uma bela citação basta!

Let’s Love!

Sejamos Românticos !


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Não é fácil...


Difícil é se calar quando o corpo todo grita e
tentar se conter com o corpo em chamas e o coração desaguando.
Difícil é estar consciente da verdade e se manter no estado de torpor.
Difícil é postergar por medo e retardar por esperança de que tudo se ajeite.
Difícil é saber as respostas das perguntas,
é ver a solução a um palmo de distância e recuar.
Difícil é o medo do silêncio das palavras, e da fúria que mora na quietude.
Difícil é o dia seguinte, é o ter de se aturar,
é saber-se claramente a par da situação,
é andar na corda bamba sem rede para proteger.
Difícil é querer irrigar terra seca com a ilusão do florescer.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Experiências Kafkianas



Como todos sabem, eu adoro leitura . Resolvi, nas últimas, fazer algo inédito: ler dois livros seguidos de um mesmo autor. O escolhido foi Franz Kafka.

Decidi começar pela leitura de Carta ao Pai, pois havia comprado o livro há um bom tempo, mas não tive ânimo para ler. Acredito que tenha acertado em cheio ao escolher este título para inaugurar minha experiência Kafkiana, pois pelo que eu pesquisei e principalmente pelo que senti a conturbada relação de Kafka com seu pai é ponto crucial em sua obra.

A ''Carta'' foi escrita em 1919. Kafka tinha o intento de entregá-la ao pai, coisa que não aconteceu. Aqui, o que salta aos olhos, além, obviamente, da relação pai-filho, é o brilhantismo com o qual Kafka escreve: o aspecto literário desta ''simples carta '' é surpreendente. Quando li, além de enxergar aspectos de minha própria relação com meu pai, também me perguntei o que habitava a mente e o coração de Kafka.

Resolvi então, passar a vez à Metamorfose.

O livro já inicia com a emblemática e arrebatadora frase: '' Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. '' A metamorfose na verdade ultrapassa os limites da mudança física da personagem principal. Tanto o seu cotidiano quanto o de sua família são alterados radicalmente.

Acredito que para um livro há várias interpretações, que ficam sempre a cargo da percepção de cada leitor. No meu caso, senti enorme perturbação com a questão da mudança. Achei cruel a forma com que Kafka descreve a dor de Gregor, algo que ousaria chamar de '' verdadeiro encontro com a solidão do ser '' . A surpreendente reação gradativa de sua família em relação à mudança também me assustou. Me fez pensar até que ponto estamos preparados e abertos para o que é novo e desconhecido. Será que cada um de nós sabe o quão forte para enfrentar obstáculos somos? Será que somos capazes de enxergar também o nosso lado cruel?

Os vários aspectos das leituras que fiz tanto de Carta ao pai e principalmente de A metamorfose, são perfeitamente contemporâneos, e justamente isso é o que me chamou atenção na leitura de Kafka. É algo com o qual é impossível passar ileso sem ser tocado de algum modo. Seja para o bem ou seja para o mal.

Recomendo fortemente a leitura, meus caros.

Beijos da Pretah ♥