terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre ver Woody Allen no cinema

Assistir Woody Allen no cinema é sempre algo mágico.Não importa se o dia demorou para passar, se acordei cedo e saí sem tomar café, se peguei condução lotada, se fui empurrada ou se pisaram na minha sapatilha novinha : a  expectativa de ir ao encontro de Woody no final da tarde é muito, muito maior do que qualquer contratempo.
Entrar numa sala de cinema pequena, pegar uma poltrona lá no cantinho e aguardar o início da projeção já deixa meu coração leve. Imagine então o tamanho do encanto que se dá quando as luzes se apagam e depois de muitos trailers , o famoso e esperado letreiro em preto e branco aparece mostrando sempre um elenco estelar! Aquela atmosfera me transporta para dentro do filme. Como é bom rever as belas mulheres de Woody, seu humor, suas falas rápidas, o sarcasmo, a ironia e a trilha que sempre tem algo de Cole Porter e dos irmãos Gershwin!
Acima de tudo, o que me encanta em ver Woody Allen no cinema é o fato de que não importa se é uma obra-prima ou apenas mais um entre os muitos longas que já fez, há sempre um bocado de magia em seus filmes. De Paris a Nova York, de Roma a  Espanha, desta ou daquela cena, sempre saem frases tocantes, lições de vida ou alentos para o meu coração.

Encontrar o velho Woody no cinema tem gosto de tradição, encontro marcado, coisa para celebrar. É o tipo da magia sem a qual não posso viver .




Eu te amo, Woody Allen !!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Recado à Moça

Moça, como não estar de olho em você?
Seus cachos fazem embaraçar minha cabeça desde quando eles eram claros, cor de mel. Agora assim, negros como sua pele, puro ouro marrom, continuam a exercer em mim um encanto peculiar. Deve ser a mágica deste sorriso doce, o cheiro que eu ainda lembro bem, a imponência de sua altura. 

A curiosidade sobre você anda branda, mas ainda te sigo com os olhos. Sou mais uma na multidão que te segue. Por certo, quem tem a sorte de conhecer o  caminho sinuoso de suas curvas também é condenado a estar sempre sob forte encanto. E que doce, doce encanto!

Acho que você é feiticeira, moça.
 Acho que você é Bárbara.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sem medida

Não consigo pegar no sono.
Minha cama de solteiro pode parecer pequena para os outros, mas para mim é como um imenso deserto. Gosto de ter onde escorar.
O silêncio da noite me atrapalha. Ali, quieta, fico esperando sozinha o sono chegar, e na ausência dele, os latidos dos cães na rua me fazem companhia, enquanto acompanho os passos dos gatos no telhado. Tento ler, mas o tic tac do relógio da cozinha me desconcentra.  Na TV, só bobeira.
 Tomo um chá, faço uma boquinha, ando pela casa de madrugada: Na maioria das vezes o sono não vem. Reparo então como com você é tudo tão mais fácil: Nada de tic tac, miados, caminhadas ou latidos. Basta virar de lado, cheirar seu pescoço e estou em paz. Nem me importo se você pega no sono antes de mim quando o que eu quero é papear na cama. Quando você dorme primeiro, roubo metade do teu espaço no travesseiro e fico no quentinho do seu corpo, ouvindo você respirar cansado até o sono vir para mim. Quando amanhece sempre acordo torta e com mal jeito no pescoço, mas a sensação de noite bem dormida é indescritível.

Já estou (mal) acostumada.



Não se medem bons sonhos com você.

domingo, 3 de agosto de 2014

Ideal de amor

Penso no ideal de amor como um livro vazio. Para a história ser escrita, é preciso quatro mãos, pois um amor ideal não se resume em poucos capítulos, e apenas duas mãos não dão conta de fazer tudo acontecer. Os autores podem ter estilos diferentes, mas ainda assim, devem chegar a um denominador comum em prol da história a ser contada. É preciso disposição, paciência, tolerância e um bocado de paixão para fazer a história acontecer. Uma dose de bom humor, outra de romantismo e ouvidos sempre prontos a escutar também ajudam. É preciso capítulos quentes mesclados com outros, nem sempre tão contentes, afinal o amor de verdade não é sempre cor de rosa.  Alguns parágrafos podem ser bem justificados, e outros, subjetivos, mas sempre retratando o cotidiano e as vivências, que são os verdadeiros combustíveis para a história acontecer. 

Penso no meu ideal de amor assim como Gilberto Gil, que fez para sua mulher, esta que é uma das músicas mais lindas músicas de amor que eu já vi :

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza.

Qual é o seu ideal de amor?

domingo, 20 de julho de 2014

Recital

Depois de mais uma transa, ele foi tomar uma água. Eu fiquei ali, estirada no sofá. Quando ele voltou, me abraçou. Ao me abraçar, não resisti. Desabei. E ali, com minhas lágrimas escorrendo  em seus braços, comecei a pensar no porquê de me emocionar depois de um ato tão aparentemente carnal. Fazendo uma leitura mais profunda do que havia (mais uma vez) acontecido  há minutos atrás, interpretei que a ideia de abrir minhas pernas como uma casa para ele poder ficar à vontade, soava como a própria personificação de alguma poesia. Era como se cada gemido fosse um verso, e cada espasmo, um soneto. Sua boca ia falando a minha língua e fazendo rimas no meu corpo, ora mais ricas, ora mais sujas. As lágrimas corriam porque era difícil passar ilesa pela força daquele corpo, por aquele olhar de domínio. Era fascinante ser página em branco para que a cada capítulo, uma nova poesia fosse escrita.

 Era fácil contar com as lágrimas depois do recital.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Você é feliz?

Você é feliz?
Essa questão é uma enorme armadilha: pode ser respondida com um sim ou com um não, e, no entanto, não consigo respondê-la de bate pronto. Não sei responder. Se me perguntam qual minha cor favorita, em um instante digo: azul. Se me questionam quais são meus ídolos, vou de Woody Allen a Djavan. Se quiser saber qual estação do ano eu prefiro, digo imediatamente que é o verão, ainda que o calor me faça derreter e cause certo incômodo.
O sorriso de uma criança me faz ser feliz, assim como um dia de sol, uma taça de sorvete ou ir ao cinema. Mas esses são momentos. Posso ilustrar milhares de momentos que me fazem estar feliz: amigos, família, chocolate, filmes, andar descalça, ver Chaves mesmo aos 26, comer lasanha de microondas, estourar os joelhos de tanto pular na pista de dança. Mas a questão acima vai além se estar. A questão é SER.
Creio que não consiga responder na lata por estar sempre preocupada com o que não está ajustado em minha vida: é o emprego ideal que não chega, são os desajustes do coração, é a grana que anda apertada...
Ao mesmo tempo, fico agradecida por ter tudo isso que me faz estar feliz, mas quero saber responder à pergunta da forma certa.
E você:

Você é feliz?

domingo, 4 de agosto de 2013

Fotografias recortadas


Deveria estar dormindo, mas o frio não me deixa em paz.  O vento gelado sabe que não o aprecio e por isso mesmo brinca de achar frestas por entre os cobertores para tocar minha pele, gelar minha espinha e me inquietar.
Apago a luz e escuto o silêncio. Automaticamente, minha mente que se manteve quieta o dia inteiro, começa a disparar mil pensamentos distintos por minuto. A dor na nuca é quase instantânea. Faço um chá e tento relaxar, filtrando os pensamentos em pastas.
Ao fechar os olhos, começo a fuçar meu arquivo mental e lá encontro um álbum com centenas de fotos que tirei de nós ao longo do tempo. Há fotos distorcidas no fundo do baú, mas que ainda guardam o perfume dos primeiros dias cheios de expectativa e curiosidade. Em meu baú imaginário há imagens de muitas noites ensolaradas e regadas a boas conversas. É como se as fotos pudessem reproduzir fragmentos do que foi dito no momento do click. Há ainda compartimentos de fotos musicais, que te revelam aos meus olhos com versos que vão de Beatles a Bob Dylan ou de Caetano a Gil, tudo junto e ao mesmo tempo.
Vejo fotos de você com os olhos fechados e tenho captado em imagens todos os seus trejeitos e manias, cada linha de expressão e cada cabelo branco que insiste em aparecer.
Fuçando um pouco mais, encontro muitas imagens de suas mãos nos meus seios, minhas mãos cravadas em suas costas e de nossas roupas sobrepostas no chão, jogadas ao longe, na pressa pela busca do prazer. 
Há fotografias em preto e branco, na luz de sépia, sob a claridade do sol e até com infravermelho, revelando seu sono.
Fecho o baú e abro os olhos sorrindo, chegando a conclusão de que cada momento ali revisitado faz parte de mim, assim como uma tatuagem que não desgruda da pele e mesmo se passada pelo laser, deixa marcas.
Me pergunto por um instante porque não há fotografias físicas e me questiono também se no seu álbum há imagens minhas. Mas aí já é uma outra história, para outra madrugada sem sono... Volto no meu álbum imaginário e escolho nossa melhor foto, que vai dormir comigo hoje, embaixo de meu travesseiro.